#3- LEGO, o meu brinquedo precioso, by Teresa Raupp – São Paulo

Quando eu era criança, acho que todo o mundo tinha problemas financeiros e era comum as crianças herdarem dos irmãos mais velhos, brinquedos inteiros ou não, para enfim, chegar nossa hora de soltarmos nossa imaginação e brincar como se fossem brinquedos novos.

Na verdade, esses brinquedos para mim eram até mais preciosos, porque vinham com uma regra mandatória da minha irmã mais velha:

“Cuida bem desse brinquedo, foi precioso para mim!”.

Assim foi o Lego.

Ganhei uma quantidade incompleta de peças de Lego e com ela, fiz enormes e incríveis castelos, bonecos, mesas, bancos e até cavalos em cujos dorsos de pelos macios e crinas longas ajudavam as princesas fugirem dos seus vilões. Foram tardes e mais tardes no meu mundo encantado, com algumas peças também perdidas por aí, algumas resgatadas anos depois.

Eu sempre fui uma criança solitária que morava num mundo encantado, mágico, colorido, cheio de histórias incríveis, personagens marcantes. Esse mundo era construído com Legos, bonecas, cachorros de verdade, caixas de papelão, além de grama, terra e pedrinhas que serviam de banquetes para reis e princesas.

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Photo by Taylor Heery on Unsplash

No entanto, o meu Lego, assim como poucos e raros brinquedos, guardei comigo. Não tive coragem de me desfazer. Ano após ano, conserva a mesma perfeição no encaixe, mas arestas.

Conheci no meio da minha trajetória, uma médica pediatra que observava suas crianças entretidas sempre com os mesmos brinquedos. Ela concluiu graciosamente que os brinquedos têm anjos e aqueles brinquedos preferidos por todas as crianças, certamente eram conduzidos por anjos melhores, mais pacientes com as crianças.

Pois meu Lego deve ter um desses anjos, pois quando meu filho tinha seis anos, presenteei com meu bom e velho Lego, não perdendo a oportunidade de pedir:

“Cuida bem desse brinquedo, foi precioso para mim!”.

Meu filho brincou muito com essas mesmas peças, mas transformando-os em terríveis dinossauros, árvores colossais, robôs do bem e do mal travando batalhas entre si, canhões de guerra, naves espaciais.

O Lego o levou a outro mundo, o mundo curioso dos meninos, mas igualmente poderoso e colossal.

Felizmente o Lego resistiu às décadas e ele ganhou mais caixas de peças, novas, diferentes, fantásticas.

Passaram-se os anos e o Lego voltou à caixa.

Eu esperava guardar para alguma criança adorável que lhe desse devido valor. Incrivelmente, fui mãe de novo depois de treze anos e minha filha herdou o brinquedo do irmão com a devida recomendação: “cuida bem desse brinquedo, foi precioso para mim!””.

Helena brinca até hoje com o Lego, feito miniatura de mim.

Assim, os ciclos se repetem e os resistentes brinquedos de Lego acompanham as gerações e as reminiscências em histórias maravilhosas e eternas.

Teresa Kimijima Raupp — São Paulo, Brasil